Opinião: Sébastien Loeb, uma lenda viva

O palmarés não engana, Sébastien Loeb é o melhor piloto de ralis de todos os tempos. Para quem não liga muito a ralis, talvez esta afirmação seja tudo menos polémica. Contudo, a supremacia do francês no WRC não convenceu nem tudo, nem todos.


É um caso interessante, Loeb é hoje o piloto com o melhor palmarés da história dos ralis. Participou em dez temporadas completas no WRC, venceu nove. É o piloto com mais vitórias em provas, mais pódios e maior número de vitórias seguidas. A sua taxa de vitórias ronda os 46%, a de pódios 68% e a de provas terminadas 87%.

A sua hegemonia não se traduziu em popularidade, pelo menos naquela que reconhecemos em Henri Toivonen, Colin McRae, Carlos Sainz, Richard Burns, Petter Solberg, entre outros. O que é que falta a Sébastien Loeb para ser acarinhado pelo público?

Loeb é uma pessoa reservada e não expressa grandes emoções publicamente. Como piloto erra pouco, tem um estilo de condução não muito espectacular com trajectórias limpas, tem uma grande capacidade de gestão das suas provas e não entra em euforias. Tem ainda uma grande característica, ganha muito e muitas vezes.

São estas as características que o conduziram a nove títulos mundiais consecutivos, mas será que são estas as características que reconhecemos em nomes como McRae ou Toivonen? Certamente que não, penso que o protótipo de piloto acarinhado pelo público é mais emotivo, tem uma pilotagem exageradamente espectacular, arrisca muito, comete erros, tem grandes acidentes, vence com frequência mas não sempre. Em suma, tem características muito humanas.

Um outro argumento contra Loeb é a concorrência que tem encontrado ao longo da sua carreira. Admitindo que algumas das temporadas que enfrentou não se pautaram especialmente por competitividade no WRC, tenho no entanto de destacar alguns feitos notáveis.

Sébastien foi Campeão do Mundo derrotando nomes como: Carlos Sainz, Marcus Gronholm, Petter Solberg, Mikko Hirvonen, Sébastien Ogier ou Jari-Matti Latvala. Ainda antes, superiorizou-se a pilotos como Colin McRae, Richard Burns ou Tommi Makkinen. Levou a Citroen ao nível que hoje lhe reconhemos, gozou do seu profissionalismo e contribuiu para a competitividade dos seus carros. Aguentou o ano de transição do Xsara para o C4 com uma estrutura privada, ganhando o campeonato no sofá da sua sala, na sequência de uma lesão que o afastou das últimas provas. Beneficiou de cláusulas contratuais que relegaram os seus companheiros de equipa para segundo plano, mas nunca deu a menor hipótese da equipa encarar outro cenário. Viu a mudança tecnológica e passagem para os novos WRC 1.6 T com naturalidade, somando mais dois títulos.

Adaptou-se a todos estes cenários com sucesso, leia-se títulos. Por tudo isto, creio que Sébastien Loeb teria sido um piloto ganhador em qualquer época dos ralis, incluindo a era do Grupo B, admitindo que poderia não vir a ter o domínio que teve no período 2004-2012. Por tudo isto, não tenho dúvidas em afirmar que Loeb é uma lenda viva dos ralis, um piloto de um século.

Mas, a verdade é que uma competição desportiva como o WRC perde valor, quando um dos seus competidores tem um nível muito superior ao dos outros. Qualquer modalidade desportiva perde quando não há incerteza no resultado. Tem sido esse um dos factores que tem prejudicado o Mundial, nos últimos anos. Mas será que o WRC ganha sem Loeb? Estamos prestes a saber, ao longo da temporada de 2013, onde o francês só alinhará em eventos seleccionados.

Penso que seria interessante um regresso desta lenda, num futuro próximo. Talvez numa altura em que haja mais pilotos com capacidades e condições de o baterem regularmente, como poderão vir a estar Sebastien Ogier ou Jari-Matti Latvala. Seria um desafio à sua altura, sem dúvida. Para já, espero que continue a competir, como é expectável que o faça no WTCC. Se há pilotos que não podem estar parados, este é seguramente um deles!